Jornal Movimental - Entrevista Catarina Oliveira
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    November 10th, 2021

No mês de agosto de 2021, a equipa ARmazing Live realizou a sua segunda Ação de Verão. Esta atividade percorreu o país de norte a sul, passou por mais de 40 localidades. Foram distribuídos quase a totalidade dos 15.000 jornais promocionais produzidos (o Jornal Movimental), mais de 18.000 brindes entregues e cerca de 30.000 mil pessoas impactadas com as marcas presentes.

Abaixo segue a entrevista com a Catarina Oliveira, presente na página 9 do nosso jornal.

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Catarina Oliveira, 32 anos, nutricionista estagiária. Com 27 anos, devido a uma inflamação na medula, viu a sua rotina dar uma volta com a adição de uma cadeira de rodas na sua vida. Este facto levou-a a partilhar a sua vida nas redes sociais mostrando que “sou apenas uma super heroína porque temos de passar por barreiras que poderiam ser eliminadas.”

Para além da nutrição, Catarina tem como hobbie a música, trabalhando como DJ e ainda é responsável pelos recursos humanos, nos eventos da Federação Portuguesa de Canoagem.

A nutrição surge de um gosto antigo. Afirma que “não são só números mas sim pessoas” e que é esse o exercício que mais gosta na profissão que escolheu. Fala-nos da desinformação que este mundo da nutrição muitas vezes oferece. Com as redes sociais, por vezes, torna-se complicado distinguir as informações das desinformações e que “com mais seguidores, vem mais responsabilidade”.

O que acha da forma como é projetada a nutrição nas redes sociais, que é muitas vezes, mais projetada pelo número de seguidores do que pelo conteúdo?

Acho que nós, nutricionistas, temos um papel muito duro em desconstruir toda essa desinformação que existe nas redes sociais. Por vezes, até por figuras públicas, que ouviram aquilo em algum lado e não sabem que isso não tem fundamento científico. Desconstruir ideias que são quase dogmas: as pessoas muitas vezes recebem a informação de alguém com muita credibilidade para elas mas que, no fundo, não tem fundamento para isso.

Compreendi, agora, a dificuldade em apurar responsabilidades de perceber de onde a desinformação veio.”

Catarina acredita que estas falácias que a internet nos entrega podem, muitas vezes, significar relações tóxicas com a comida, gerando compulsões alimentares e outros problemas de saúde. “É muito importante se querem falar de nutrição, procurem especialistas que tenham por base as evidências científicas.”

Acha que o bombardeamento de informação que existe nas redes sociais pode gerar relações pouco saudáveis com os jovens em relação à comida?

“Acho que esse bombardeio surge da forma como tudo nas redes sociais é publicado: as coisas são expostas como “eu” quero. Nos dias em que estou mal, eu própria, não apareço tanto simplesmente porque não me apetece. As redes sociais são o espelho dos dias bons das pessoas.

Com a padronização que o melhor é ter o corpo “x”, a roupa “y” ou comer aquilo que é bonito aos olhos ou que a figura pública come, criou-se uma pressão social sobre as pessoas de estarem em forma, comerem o que os outros comem ou suplementar de forma pouco controlada. Isto criou nos jovens uma pressão de ser perfeitos e assim são geradas essas relações tóxicas com a comida. Focam-se muitas vezes na balança e não no espelho.

Quais os conselhos básicos que daria enquanto nutricionista?

Primeiramente, eliminar o mito da “comida boa” ou “comida má”. Não existe comida má, existem alimentos menos interessantes nutricionalmente e outros mais interessantes. E esquecer um bocadinho o conceito do “dia do lixo”. Não é como se colocássemos um cartão vermelho toda a semana e, um dia por semana, colocamos o cartão verde e comemos de uma forma totalmente compulsiva.

Depois, ter a disponibilidade de se reeducar alimentarmente, não pensar que vamos comer saudável para perder peso mas sim, começar procurar alimentos que nos saciam e que sejam melhores nutricionalmente, reeducando também o nosso paladar.

Por último, não nos focarmos num número da balança mas sim, naquilo que nos faz sentir bem. Devemos relaxar todo este conceito de nutrição, aliado a um corpo perfeito e a desintoxicações que não existem e voltarmos um pouco à base que é alimentarmo-nos de forma nutritiva e equilibrada.

Com a partilha da sua história, Catarina atraiu muito público e através do “poder das redes sociais”, ela vem mudando mentalidades e apoiando causas como o capacitismo e a inserção de pessoas com deficiência em todas as esferas sociais.

Atualmente, sabemos que a representatividade de pessoas com deficiência, quer nos órgãos governamentais, quer no entretenimento e comunicação social, não é de todo significativa. O que acha que deve ser feito a curto e longo prazo para que isso possa mudar?

“É necessário que essa representatividade aconteça não só como representação, ou seja, colocar a pessoa à frente das câmaras ou num lugar de destaque, mas que também existam pessoas atrás das câmaras, empregadas nas empresas que se afirmam como inclusivas, mas que depois não tem um único funcionário com

deficiência e não é por falta de candidatos.

Falei sobre a empregabilidade mas é em tudo, filmes, séries, etc. É necessário que a pessoa com deficiência seja representada idealmente com alguém mesmo com deficiência, não vamos cair no erro de querer representar uma pessoa negra, pintando uma pessoa branca de negro. É necessário colocar pessoas com deficiência a falar, não só sobre deficiência mas sobre nutrição ou música. A representação acaba por ser isso: abrir espaços para pessoas com deficiência, deixar que estas pessoas tomem as rédeas das suas escolhas e vida. Para isso, é preciso não impor tantas barreiras para as pessoas chegarem aos espaços porque nós conseguimos chegar a qualquer lado. “

Quando abordada a questão da publicidade inclusiva, Catarina diz-nos que existe um grande caminho a percorrer. Conta-nos que fez uma campanha para a Veet em que foi convidada e “não estava ali para falar sobre a minha deficiência. Estava

ali enquanto mulher (...). Já é um primeiro passo mas não podemos ficar por aí, temos que ir mais além e integrar a pessoa com deficiência em todas as oportunidades que podemos dar. Também está tudo bem se alguém não quiser aquela pessoa com deficiência no anúncio, não é obrigatório, não é caridade, é um trabalho pago mas é preciso abrir horizontes porque andamos todos na rua ou, pelo menos, devíamos andar.

Nos teus trabalhos, procuras esse lado de não estar lá unicamente por causa da deficiência ou não te importas de falar disso?

“Eu cada vez mais me tenho desvinculado disso, de falar unicamente da minha história. Ainda agora, estou a pensar aceitar ir a um programa de TV e não sei se o vou fazer porque depois me querem lá simplesmente para contar a minha história. Obviamente que acho importante aparecer em determinados locais independentemente de saber que, no início, vou ter de contextualizar com a minha história para perceberem o que aconteceu, mas tento fazer o trabalho de explicar às pessoas que quero falar de mais. Quero falar das acessibilidades ou da falta delas, do capacitismo, da discriminação porque acho que, efetivamente, somos tão esquecidos ainda que, se calhar, todas as portas são uma porta que eu tenho de aproveitar para entrar.”

Catarina tenta “fugir da história de inspiração” a que muita gente a vincula. “ A superação de que falam não advém da cadeira de rodas, vem das barreiras que enfrento que poderiam ser eliminadas.”

Como conclusão, afirma que o segredo não está em exaltar alguém por ter uma deficiência motora, mas sim, acabar com os desafios que enfrentam diariamente.


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Pode seguir o trabalho da Catarina no Instagram em @especierarasobrerodas